Alê Flávio

"À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

Reflito, logo, emputeço, logo, movo-me?

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Eu tenho refletido muito sobre muitas coisas essas últimas semanas. Na verdade, eu acho que eu reflito sobre tudo desde que descobri o que é refletir.

Eu voltei a ler bastante. Não livros (ainda), mas artigos, newsletters, matérias… não sei se isso é bom ou ruim, mas sinto minha cabeça sendo levemente massageada de novo. Ainda acho que tá bem longe do que eu gostaria que fosse (sim, eu tenho um estado ideal na minha mente e nenhuma terapeuta vai me convencer de que “tudo bem não ser dessa maneira”), mas já tá melhor do que era antes.

Isso faz com que, que surpresa, eu reflita muito mais e sobre tudo. Talvez por isso que tenho estado tão exausto mentalmente nos últimos tempos; minha cabeça, que nunca foi muito quieta, é verdade, não para um segundo de funcionar.

De qualquer maneira, sobre estar consumindo mais textos novamente, a escritora e minha amiga de faculdade Raquel Terezani, por exemplo, escreveu um texto muito interessante sobre “raiva” e tem um trecho, especificamente, com o qual me identifiquei bastante:

“A raiva me é útil, me moveu muitas vezes. Me incitou a fazer muitas coisas das quais me orgulho, desde confrontar pessoas que me magoaram (e assim superar certas situações), até criar ficção. Lembrei agora de quando um estelionatário deu golpe numa amiga minha (casou com ela inclusive e depois desapareceu) e de como o ódio que eu senti dele se tornou um conto sobre vingança (já que não pudemos matá-lo e sumir com o corpo).

A raiva faz parte de mim. Eu gosto dela.


Eu concordo 200%. Eu tinha uma frase no passado que era “o ódio move o mundo” e eu ainda concordo muito com isso, não de um jeito niilista ou trevoso, mas dum ponto de vista prático. A raiva, de certa forma, nos indigna e nos faz querer agir (ou deveria); ela é a pedra no sapato, a gasolina no fogo.

Mas porque estou falando sobre isso? Bem, porque acho que outro sentimento similar é o desconforto. Aquela sensação de que algo está fora do lugar, seja você ou seja outra coisa. E acho que é seguro dizer que o fato de eu estar refletindo mais que espelho polido, estar lendo mais, observando mais me sinto desconfortável como há muito não me sentia e, honestamente, tenho sentido bastante raiva também.

Resta saber se isso vai me fazer ir pra algum lugar ou vai viver eternamente nesse texto aqui.

Veremos.

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Sobre Fé, ou o que sobrou dela

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Eu acho que perdi minha fé. Não totalmente, mas, alguma coisa eu perdi.

Digo, existem vários tipos de relação com Deus, fé e afins e a minha sempre foi bem flexível, pra ser honesto. Flexível porque sempre fui capaz de ficar dias sem nem lembrar de Deus mas, quando o calo apertava, lá ia eu correndo pra pedir “luz, força e direcionamento”.

Outro dia me vi nesse mesmo lugar, tomando banho e pensando que precisava talvez voltar a frequentar a missa, ou dar um pulo numa igreja ali perto do trabalho, que adotei depois que sentei em seus bancos por algumas vezes no meio do expediente em diferentes momentos em que coisas não estavam muito legais.

O problema é, que dessa vez, veio uma voz dizendo “precisa, mesmo?” – e isso me pegou.

Eu sempre gostei da ideia de que fé e religião são coisas extremamente pessoais e que os efeitos dos nossos pedidos e orações só são percebidos em sua totalidade por aquele que pediu. Nunca pensei nessa relação como Deus sendo o Jim Carrey em “O Todo Poderoso”, em que eu peço ajuda com alguma coisa e lá vai Deus ver o que ele pode fazer pra me ajudar; isso sempre me pareceu uma idéia muito egoísta de Deus (infelizmente, essa é a concepção mais popular). E, convenhamos, Deus tem (ou deveria ter) coisa mais importante pra se preocupar do que me ajudar a conseguir uma promoção ou com o meu controle emocional pra não espancar o coleguinha de trabalho.

No entanto, sempre acreditei que o rito da fé e da oração são componentes poderosíssimos no ser-humano e na sociedade. Há uma crescente quantidade de estudos, que vem de pelo menos 20 anos, sobre a relação fé x ciência (exemplo de 16 anos atrás). Além disso, sempre acreditei no mundo espiritual e na existência de algo maior do que nossa vida medíocre e limitada e que, quando oramos, alguma coisa acontece nesse reino e gera uma espécie de “efeito borboleta” que, ultimamente, influencia a vida na Terra.

O problema é que, conforme os anos foram passando, eu comecei a perceber que, de certa forma, minha fé virou uma espécie de muleta espiritual a quem eu recorro sempre que eu me vejo olhando pra uma parede sem saber o que fazer, o que, por si só, não seria necessariamente um problema. No entanto, o comportamento com o resultado é. Na maioria das vezes, talvez de uma maneira inconsciente, eu fazia algo diferente e isso resultava num resultado positivo pra mim, uma evolução e eu me dava tapinhas nas costas por ter conseguido superar aquele desafio. Já quando nada acontecia, eu corria pra culpar e questionar Deus.

Conveniente, né? Pois bem.

Quando eu digo que “acho que perdi a minha fé” não é como se eu tivesse deixado de acreditar que Deus (ou qualquer divindade, dependendo em que o leitor acredite) exista, mas é como se eu tivesse perdido a capacidade de acreditar que, se há um reino espiritual, ele liga pra o que eu faço ou deixe de fazer aqui embaixo. Digo isso por algumas razões: certamente existem pessoas ou situações que precisem muito mais de uma intervenção divina do que eu; essa relação de “atendemos primeiro que mais pede” não me parece o tipo de troca justa, sobretudo em se tratando da relação com o divino; a sensação incômoda de, no fim, não ser dono das minhas decisões.

Por isso eu acho que perdi minha fé. Ainda acredito que alguém olha lá pela gente e tudo, mas acho que deixei de acreditar que minhas angústias são catalisador de alguma coisa, boa ou ruim, se as colocar num pedido “de coração contrito e humilde”. Eu acredito em Deus e gosto de acreditar na idéia de um Ser-além-do-tempo-e-espaço que se diverte com o quão imbecil pode ser uma de suas criações. Mas acho que, depois de muitos anos, não sei o quanto acredito que alguém me ouve quando eu choro sozinho.

Sabadou.

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Das duas, uma. Ou as duas. Ou nenhuma.

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Dia desses eu tava pensando na dificuldade de manter uma rotina aqui e acho que, a princípio, consegui isolar pelo menos dois motivos iniciais:

  1. Sensação de que eu escrevo, compartilho e, virtualmente, ninguém lê (o que me faz me sentir meio idiota)
  2. Dada a minha atual leitura de mundo, há uma chance de 98.7% do que eu escrever aqui ofender alguém que possivelmente vai ler e tá vivendo em Nárnia (ou fingindo que os problemas da sociedade não são com ele)

A segunda razão me importa um pouco menos porque talvez ela, no fim, acabe me ajudando a definir quem eu quero por perto (e, sinceramente, ajudando terceiros a perceber que talvez não me queiram por perto). Mas tenho planos pra voltar nesse tópico em breve.

Já a primeira me pega muito, parte por um narcisismo que levei uns 30 anos pra admitir que eu tenho, parte porque a razão de ser de um texto é ser lido.

Lembro-me, quando eu era jovem e (mais) pedante, no meu primeiro ano de faculdade, de uma discussão a caminho do bar (🤷🏻‍♂️) que tive com um colega de sala (o Cossina, pra quem estudou comigo) em que ele falava justamente sobre um livro que ninguém leu ser inútil, não ser arte; sobre “algo só se tornar arte quando apresentado ao mundo”. Eu, então no auge dos meus 20 anos, bradava que isso não fazia o menor sentido; “que um livro ou quadro que ninguém sabe que existe também é arte”, afinal um coitado pois seu suor e sangue na sua criação!

Olha só como são as coisas.

Vinte anos depois, talvez eu ainda defenda que a arte é arte por si só, mesmo se feita somente pra si mesmo. No entanto, tendo a ser mais flexível e concordar que se algo não é de conhecimento de terceiros, não pode ser apreciado, absorvido, criticado e interpretado não é, per se, arte – é só uma coisa.

Acho que meu ponto é: se vocês lêem as bobagens que eu escrevo aqui e acharem alguma coisa sobre me contem. Ou me xinguem, sei lá.

Eu só quero escrever até o mundo acabar.

E depois.

Hasta pronto.  

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